O que explica a disparada de infecções por HIV entre jovens brasileiros

O professor de academia e modelo Leo Cezimbra, 35: soropositivo aos 31 anos

Quando Leo Cezimbra tinha 31 anos, seu rosto e seu corpo eram exibidos em uma campanha publicitária, com outdoors e chamadas na TV, na cidade gaúcha de Uruguaiana (631 km de Porto Alegre). Licenciado e bacharel em educação física e pós-graduado em gestão e organização de escola, dividia seu tempo entre as aulas em uma academia local e o trabalho de modelo. O corpo sarado não dava pistas de que estaria infectado pelo vírus HIV.

“Sempre fiz exames frequentes e tive relacionamentos longos. Já tive momentos em que eu fiquei solteiro e sempre me protegi. E só fui conviver com o HIV depois dos 30 anos. Não sei como fui infectado. É bem possível que tenha pegado de um ex-namorado”, diz o professor e modelo, hoje com 35 anos –o teste que detectou a contaminação aconteceu em 2013.

Cezimbra, de família tradicional –a mãe é professora, e o pai, dono de uma loja de artigos para caça e pesca–, compõe um perfil que preocupa responsáveis pelos programas de combate às DST/Aids e entidades engajadas na luta pelo controle dessas infecções: a taxa de jovens infectados pelo HIV cresceu nos últimos anos, enquanto outras faixas de idades veem a diminuição desse número.

Segundo o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde, a taxa de infectados explodiu entre 2006 e 2015 nas faixas de 15 e 19 anos (variação de 187,5%, com a taxa passando de 2,4 para cada 100 mil habitantes para 6,9) e de 20 a 24 (alta de 108%, passando de 15,9 para 33,1 infectados). Entre 25 a 29 anos, foi de 21%, com a taxa migrando de 40,9 para 49,5%.

O professor e modelo detectou a doença em uma idade posterior a essa alta. Porém, o período entre os 30 e os 34 anos não apresentou queda –manteve-se na faixa dos 55 por 100 mil habitantes e hoje só não é maior que a entre 35 e 39 anos, cuja taxa, de 58,3, caiu 7,5% nos últimos dez anos.

VEJA COMO É A TRANSMISSÃO DO HIV E COMO CONTROLAR O VÍRUS

“Temos que olhar para essa faixa etária”, afirma a médica infectologista e consultora do programa municipal de DST/Aids da Prefeitura de São Paulo Joselita Magalhães Caraciolo. “Em termos de taxa, [a incidência entre os 15 e os 19 anos] é grande, mas o número ainda é pequeno. A dimensão entre 20 e 24 é maior, porque a maior parte está com a vida sexual ativa.”

“Estigma fica presente”

Na cidade de São Paulo, a característica dos novos infectados remete para os mais jovens, homens que praticam sexo com outros homens e uma concentração nos bairros centrais, sobretudo a República, onde a taxa de detecção é de 132,4 infectados por 100 mil habitantes. No Brasil, o índice divulgado em 2016 é de 19,1. “O medo e o preconceito ainda são muito grandes. E o medo de descobrir a Aids é muito grande também”, afirma a médica.

Hoje, é possível manter um ritmo normal mesmo convivendo com o vírus. A imagem do infectado magro e calvo de filmes como “Filadélfia”, de 1995, e o mais recente “Clube de Compras Dallas”, de 2013, é quase passado, se os tratamentos forem cumpridos com rigor.

Uruguaiana, a cidade de Leo Cezimbra, pode ser considerada média, com cerca de 130 mil habitantes. Mas a localização, na fronteira com a Argentina, a mantém distante dos grandes centros. Como o pai é um comerciante muito conhecido, ele demorou a “sair do armário”.

“A cidade era muito machista e tinha medo de não conseguir me relacionar. O pessoal é muito tradicionalista e deixa pessoas fechadas para o novo. Foi muito difícil no início. Quando veio o resultado desse exame, eu estava em outro armário. Fui sair disso primeiro com a minha família e só depois com o trabalho. Surgiram os boatos, e algumas alunas começaram a não fazer os exercícios comigo. Me evitavam. Quando eu contava, as pessoas choravam e desesperavam. Os amigos falavam: ‘Tu, não!'”, diz Cezimbra.

“Essa reação é por falta de informação. Elas se acham protegidas porque elas vivem bem relacionadas, bem. Eu tinha uma turma de hidroginástica de mais 40 alunos. As pessoas falavam: ‘Você é sarado, malhado’. Eu falei: ‘Vocês acham que o soropositivo fica como o Cazuza’. É o estigma que ainda está muito presente.”

[Na época do diagnóstico] eu estava com o corpo em dia. Tirava muita foto sem camisa e me depilava. Entrei em um rio e comecei a ter furúnculos. Dois, três, um atrás do outro. Fiz os exames em um laboratório. Pedi para incluir HIV. No mesmo dia, veio o resultado de todos, menos o HIV. Entrei em pânico. Achava que ia morrer em dois meses. No primeiro dia falei para toda a minha família. E isso me ajudou muito

Leo Cezimbra, professor e modelo, soropositivo desde os 31

Há um consenso de que o fato de a luta contra a doença, nos anos 1980, não ter sido vivida pela geração que hoje tem até 30 anos gera uma sensação de “normalidade”. Não que apenas isso justifique o risco e o aumento de detecção, mas entidades e governo afirmam que é preciso mudar as campanhas e o meio de abordagem.

“Eu acho que as pessoas sabem que existe um tratamento que não é fácil, mas melhora a qualidade de vida. A mortalidade tem diminuído ao longo da década e é um tratamento muito eficaz. É o que faz vencer o medo. O caminho ainda é longo, precisamente na população chave. A característica das populações é com jovens. Na cor da pele, são pretos e pardos. E o perfil é de sexo entre homens na região central [de São Paulo]. É lá que está nossa concentração”, afirma Caraciolo.

AIDS CRESCE TRÊS VEZES NO BRASIL E CAI NO RESTANTE DO MUNDO

Entre as décadas de 80 e 90, morreram vítimas de complicações causadas pelo HIV astros hollywoodianos, como o ator Rocky Hudson (o primeiro superstar afetado pela doença), de novelas da Globo (Sandra Bréa e Lauro Corona) e ídolos do pop rock brasileiro, como Cazuza e Renato Russo.

“A gurizada de 20 anos começou a perceber que o HIV tem tratamento. É visto como uma infecção crônica. Só vai ao óbito se não aderir ao tratamento. Mas não viu o terror, gente que admirávamos morrendo da Aids. O vírus não era controlável. Nos EUA, foi um massacre”, diz Cezimbra.

As gerações mais velhas viram formas graves da Aids e tomaram outras atitudes. A juventude, com esses novos métodos [de tratamento], fica mais tranquila. É preciso achar novas formas de falar com os jovens sobre a infecção. A saúde pública precisa usar as mídias sociais, os aplicativos de encontro. As outras populações estão respondendo bem, a dificuldade é chegar ao jovem

Joselita Magalhães Caraciolo, médica infectologista

O método, afirmam, é a inserção em redes sociais e em canais do YouTube, como defende a editora-chefe da Agência Aids de Notícias, Roseli Tardelli, ex-apresentadora de programas na TV Cultura, como o “Roda Viva”.

“É preciso criar uma estratégia de comunicação para atingir os jovens. Não sou a favor de campanhas de medo, mas respeitar e informar melhor sobre HIV. Todo mundo é vulnerável. É preciso mudar essa estratégia: mostrar aos jovens que não viram a situação da Aids no começo. A gente tem que mudar a estratégia de comunicação e usar as redes sociais.”

O que é a terapia antirretroviral:

  • Foi usada pela primeira vez em 1996 e envolve uma combinação de três remédios ou mais para impedir a multiplicação do vírus HIV no corpo humano.
  • O tratamento permite a prevenção de danos causados pelo HIV no sistema imunológico.
  • Remédios ainda mais eficientes descobertos recentemente têm menos efeitos colaterais do que os primeiros.
  • A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda que a terapia antirretroviral comece o mais cedo possível depois do diagnóstico do vírus.

Novos métodos

Tratamentos recentes como a PEP (profilaxia pós-exposição), depois de uma situação considerada de risco, e a PreP (profilaxia pré-exposição ao HIV) –estratégia para evitar o contágio, com a utilização diária de um medicamento antirretroviral por pessoas não infectadas– têm sido vistos como uma espécie de “salvaguarda” para a exposição ao vírus.

Se eles podem proteger do risco de infecção com o HIV, porém, eles não protegem de outras doenças sexualmente transmissíveis, além do teor invasivo –a PEP, por exemplo, exige um tratamento com duração de 28 dias.

Gabriel Estrêla, 25, youtuber da causa com quase uma centena de vídeos dedicados a desvendar mitos sobre a prevenção e a convivência com o HIV, fez um de seus programas para desnudar as dúvidas sobre o uso de PEP, por exemplo. Soropositivo desde os 18 anos, ele mantém o canal Projeto Boa Sorte, com os programetes “#EuFaloSobre”. São cerca de 15 mil inscritos.

No episódio, ele enumera dez verdades e mentiras sobre a PEP. “Tinha acabado de rolar um episódio de ‘Malhação’ com um personagem que ia tomar PEP numa ocasião equivocada. O primeiro passo foi falar de um negócio que estava há muito tempo fazendo um alarde. Existe a comparação de ser ‘a pílula do dia seguinte do HiV’, que é um recurso didático ótimo, mas é preciso explicar o que é. Há uma medicalização dos corpos. Deixei claro que usar medicamentos pode trazer efeitos colaterais.”

Gabriel Estrêla, 25, soropositivo desde os 18 e que mantém canal no YouTube

Um dos programas de Estrêla é com a mãe, que soube que o filho estava infectado antes mesmo que ele contasse. Hoje, o youtuber, que contraiu o vírus na adolescência, foca suas transmissões para as faixas etárias e os grupos mais vulneráveis à infecção.

“Este é o momento de fazer escolhas. Desde a carreira às pessoas que você vai levar para a vida inteira. Receber esse diagnóstico nesse momento chacoalha tudo. É o momento de respirar e reestruturar tudo. Nesse momento, as estruturas ainda estão frágeis [para o diagnóstico].”

Para uma campanha, não basta falar do ponto de vista, mas da história. É como a gente escolhe as narrativas. Não basta fazer campanha para a prevenção, mas para quem já está com o HIV

Gabriel Estrela, 25, soropositivo desde os 18 e youtuber 

Estrêla não segue roteiros ou assuntos predefinidos em seu canal. Fala à medida que as questões surgem. As gravações são no quarto, na sala, em ambientes confortáveis. A interação é por meio dos comentários –é ali que dúvidas são tiradas e outras questões são levantadas.

“Percebi que o YouTube era uma ferramenta para falar do assunto. Em português, não tínhamos youtubers falando disso. Meu lema é sempre falar sobre quando há o silêncio. As palavras são muito importantes para a história que a gente conta. E isso não está relacionado ao diagnóstico positivo ou negativo. A gente precisa trazer todo mundo. Se eu foco em quem tem HIV, deixo a prevenção de lado. Se falo em prevenção, eu deixo quem tem como vilão. O grupo que segue meu canal é misto.”

O youtuber ouve os números passados pela reportagem. Compreende a alta entre os jovens e os homens que praticam sexo com outros homens, mas inclina a narrativa para uma conclusão mais sofisticada. “Número não relata vulnerabilidade. Vulnerabilidade tem a ver com a questão social. Quando falo em vulnerabilidade dos homens gay,s não é fazer sexo anal, mas chegar a um posto de saúde e não poder falar sobre suas práticas homossexuais. É preciso ter a ideia de que o gay não é grupo de risco, é a sociedade que leva à vulnerabilidade.”

Fonte: UOL

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